Iniciativa será lançada durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão e propõe mobilização em torno de informação, pesquisa, inovação e maior espaço para as fibras naturais

O que existe por trás da roupa que vestimos? O que acontece com as fibras e o que elas liberam ao longo de sua vida útil? E quanto sabemos, de fato, sobre os materiais que escolhemos vestir? Essas perguntas estão no centro do Movimento Fim da Linha, que será lançado nesta quinta-feira (24), durante o15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), em Belo Horizonte (MG).
A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre a presença de microplásticos no cotidiano, especialmente aqueles associados às fibras sintéticas, e estimular escolhas mais responsáveis por parte da indústria têxtil e de consumidores. O movimento também busca valorizar as fibras naturais, incentivar pesquisa e inovação e aproximar consumidores, indústria, comunidade científica e poder público desse debate.
O lançamento está diretamente conectado ao tema desta edição do CBA — “Algodão brasileiro: fibra natural. Uma jornada com propósito, qualidade e transparência” — e ocorre oficialmente durante painel “Como reconectar o brasileiro à fibra natural? Um desafio de saúde pública, meio ambiente e estratégia nacional”. Ao longo dos três dias de congresso, os participantes poderão conhecer o movimento em um estande dedicado à iniciativa, com espaço para fotos, um quiz sobre fibras e o contador de micropartículas, baseado em um estudo da WWF.
A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), organizadora do CBA, tomou a iniciativa de reunir entidades representativas de diferentes fibras naturais em torno do movimento. Para Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa, levar o tema ao principal encontro da cotonicultura brasileira contribui para ampliar o debate sobre o papel que as fibras naturais podem desempenhar no país.
“O Brasil construiu uma cadeia de algodão qualificada, tecnológica e capaz de fornecer uma fibra natural em grande escala, com certificação socioambiental. O CBA é o espaço para discutirmos não apenas como produzir mais e melhor, mas também como ampliar o uso e a valorização dessa fibra. Para nós, falar sobre fibra natural também é falar sobre as escolhas que fazemos para o futuro”, afirma Piccoli.
Fibras naturais na agenda de políticas públicas
Entre as principais fontes de microplásticos estão tecidos sintéticos produzidos a partir de polímeros plásticos, como poliéster, nylon e acrílico. Ao longo de seu ciclo de vida, especialmente pelo desgaste e pelas lavagens, esses materiais podem liberar microfibras plásticas.
A presença dessas partículas no organismo humano já vem sendo identificada pela ciência. Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Universidade Livre de Berlim, por exemplo, identificou fibras e partículas de microplásticos no cérebro humano.
A ciência, no entanto, ainda investiga os possíveis efeitos dessa exposição à saúde. A identificação de microplásticos no organismo ou de associações com determinados desfechos não significa, por si só, comprovar causalidade. As evidências existentes reforçam a necessidade de atenção, pesquisa e prevenção.
O movimento não propõe a eliminação das fibras sintéticas. A discussão busca ampliar informação e transparência, estimular pesquisa e inovação e criar mais oportunidades para o uso das fibras naturais quando tecnicamente adequadas.
Para o diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, a conscientização deve caminhar ao lado da construção de políticas públicas capazes de estimular a valorização das fibras naturais.
“A valorização das fibras naturais precisa ser tratada como uma agenda de longo prazo. Queremos ampliar o diálogo com governos, indústria e a comunidade científica para construir políticas públicas que estimulem pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico, criando novas aplicações e condições para ampliar a presença das fibras naturais na indústria têxtil brasileira. Esta é uma agenda que reúne saúde, sustentabilidade ambiental, desenvolvimento industrial e informação ao consumidor”, afirma Portocarrero.
Cânhamo e lã se juntam ao movimento
O Fim da Linha nasce com a participação da Abrapa, Ayraa Eco Friendly, Associação Brasileira de Criadores de Corriedale (ABCC), Associação Brasileira de Criadores de Merino Australiano (ABCMA), Associação Brasileira de Criadores de Ideal (ABCI) e Associação Brasileira de Criadores de Ovinos Naturalmente Coloridos (ABCONC), reunindo diferentes setores em torno de uma agenda que envolve saúde, meio ambiente, ciência, consumo, indústria e desenvolvimento.
Para Marcelo Sertório, sócio-fundador da Ayraa Eco Friendly, reunir diferentes fibras naturais amplia a informação disponível ao consumidor e evidencia a diversidade de características e aplicações dessas matérias-primas. A empresa atua no desenvolvimento da cadeia do cânhamo industrial no Brasil e em sua integração com outras fibras naturais.
“Queremos ampliar o conhecimento sobre as fibras naturais, suas características e possibilidades. Informação é essencial para que o consumidor faça escolhas mais conscientes”, afirma Sertório.
A lã Merino também integra esse movimento como uma fibra natural, renovável, biodegradável e de múltiplas aplicações. Além do vestuário, pode ser utilizada em calçados, mantas, estofados, tapetes, itens de decoração e materiais de isolamento térmico e acústico.
Para a presidente da Associação Brasileira de Criadores de Merino Australiano (ABCMA), Raquel Dall’Igna Rodrigues, a união entre diferentes cadeias ajuda a mostrar à sociedade a diversidade e o potencial das fibras naturais.
“Quando reunimos diferentes fibras naturais, ampliamos o acesso à informação e mostramos que existem alternativas naturais para diferentes usos no cotidiano. Essa união fortalece as cadeias produtivas, valoriza quem produz e contribui para escolhas mais conscientes e responsáveis”, afirma Raquel Rodrigues.
Conheça mais sobre: Microplástico é o fim da Linha.
Fonte: Abrapa