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O sucesso da pluma

Às vezes se vai mais rápido sozinho, mas certamente juntos vamos mais longe. A frase de Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), pode parecer “chavão”, mas sintetiza a maneira de pensar e agir da cadeia produtiva do algodão nas últimas três décadas.

Os resultados positivos comprovam sua eficácia. O Brasil, que em 1997 ocupava a amarga posição de segundo maior importador de algodão do mundo (atrás somente da China), reassumiu em 2002 o posto de país exportador e atualmente é o segundo maior fornecedor mundial da pluma, com aproximadamente 1,725 milhão de toneladas embarcadas na safra 2021/2022, atrás somente dos Estados Unidos, segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea).

Diversos fatores estão por trás dessa virada, e a interação entre os diversos elos da cadeia produtiva do algodão é certamente um dos principais. As palavras “necessidade” e “respeito” são recorrentes entre as lideranças do setor algodoeiro para explicar como se chegou a essa organização, que é referência para outras cadeias produtiva.

“Há muito respeito entre os vários elos da cadeia produtiva do algodão. Não há soberba, uma postura de achar que você é mais importante que o outro, o que em geral traz mais antagonismo que resultados”, afirma o produtor Alexandre Schenkel, de Campo Verde (MT). A consciência de que cada elo depende do outro é uma grande vantagem para um setor que enfrenta muitos desafios, diz ele.

Mas como tudo isso começou? O Brasil teve um desempenho relevante na produção e exportação mundial de algodão até meados dos anos 1980, quando as lavouras dos Estados líderes na cotonicultura foram dizimadas pelo bicudo do algodoeiro – considerado até hoje a maior praga da cultura.

Essa situação, que não interessava a ninguém (aos produtores, à indústria têxtil, ao governo, às instituições de pesquisa e aos fabricantes de insumos agrícolas), acabou gerando um esforço nacional em prol da erradicação do bicudo. Resultou também num programa de incentivo à cultura do algodão no Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e também em Rondônia, no noroeste do país), conta João Ribeiro Crisóstomo, pesquisador aposentado da Embrapa Algodão (PB).

No final dos anos 1970, o empresário paulista Olacyr de Moraes já fazia as primeiras experiências com o cultivo de algodão no modelo empresarial na Fazenda Itamarati, em Ponta Porã (MS), influenciado pelo amigo produtor Ignácio Mammana Netto.

Mas somente na virada dos anos 1990 uma verdadeira revolução no cenário agrícola do Cerrado mato-grossense teve início na Fazenda Itamarati Norte, em Campo Novo do Parecis (MT), onde Olacyr bancou as pesquisas realizadas em parceria com a Embrapa, que resultaram na variedade CNPA-ITA 90 – uma mistura de várias linhagens selecionadas na Deltapine Acala 90.

Essa “sementinha” foi fundamental para o boom da cotonicultura mecanizada nas regiões do Cerrado. No entanto, junto com ela veio um grande problema: as primeiras cultivares da ITA-90 eram suscetíveis à chamada “doença azul”, uma virose transmitida por um pulgão, cujo controle ficou praticamente impossibilitado pelo excesso de chuvas na safra 1994/1995. Muitos produtores pioneiros quebraram, porém, essas dificuldades levaram os agricultores de Mato Grosso a se unir.

“Uma postura de achar que você é mais importante que o outro em geral traz mais antagonismo do que resultados” – Alexandre Schenkel, produtor de algodão.

“Tudo serviu de lição. A gente levava paulada na cabeça e, em vez de ficar reclamando, se unia para buscar soluções”, lembra o presidente da Associação Mato-grossense de Produtores de Algodão (Ampa), Paulo Sérgio Aguiar, que faz parte de uma família pioneira no plantio na região de Primavera do Leste (MT). Lá, os produtores se associaram para plantar e colher as primeiras safras da nova cultura, beneficiar e classificar o algodão produzido, criando a Unicotton em 1997.

Mas uma das mais ousadas iniciativas dos produtores mato-grossenses foi convencer o então governador Dante de Oliveira a instituir, em 1997, o Programa de Apoio ao Algodão de Mato Grosso (o Proalmat), que gerou incentivos fiscais visando viabilizar a implantação da cadeia produtiva do algodão, inclusive com a garantia de recursos para a pesquisa. Em 1997, os produtores de Mato Grosso criaram a Ampa, e dois anos depois, quando outros Estados começavam a cultivar algodão no modelo mecanizado, foi fundada a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Nessa caminhada, os cotonicultores do Cerrado contaram com apoios fundamentais, entre eles, o de Andrew Macdonald, escocês naturalizado brasileiro que faleceu em janeiro deste ano. Diretor comercial da Santista Têxtil, ele veio a Mato Grosso em meados dos anos 1990 e incentivou muitos agricultores a aderir à nova cultura, com a promessa de que compraria toda a produção, “independentemente de qualidade, pagando o preço de mercado”.

O executivo teve participação decisiva na primeira exportação de algodão em pluma feita pelos produtores, em agosto de 1998, quando a fibra produzida em Mato Grosso estava longe de ter sua qualidade reconhecida no mercado internacional. Essa operação pioneira contou com a parceria da corretora Laferlins e da trading Paul Reinhart.

Os cotonicultores compreenderam naquele momento que era preciso fazer um trabalho de divulgação do algodão produzido no Cerrado e, com apoio da Ampa e, em seguida, da Abrapa, começaram a viajar pelo mundo (principalmente a países asiáticos) apresentando as características do produto. O marketing internacional incluiu trazer potenciais compradores para visitar as fazendas produtoras de algodão no Cerrado.

“Com o apoio das instituições de pesquisa e de produtores de insumos, conseguimos ampliar a produção algodoeira e hoje temos a maior produtividade do mundo em algodão de sequeiro (que corresponde a aproximadamente 90% da produção brasileira)”, comenta Júlio Cézar Busato, atual presidente da Abrapa e pioneiro na produção de algodão no Cerrado baiano.

Busato cita uma série de iniciativas do setor que nasceram da necessidade de mudar o jogo a favor da pluma brasileira, entre as quais o programa Cotton Brazil, realizado em parceria com a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) e apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

Graças a esse programa, foi instalado um escritório da Abrapa em Singapura, de onde o diretor de relações internacionais da entidade, Marcelo Duarte Monteiro, coordena ações com o objetivo de aperfeiçoar a divulgação do algodão brasileiro. Além de realizar o Brazil Cotton Day em território asiático, o programa Brazil Cotton foi responsável pela realização da Missão Compradores, que trouxe a fazendas de Mato Grosso, Bahia e Goiás 21 industriais do setor têxtil, de fiação e traders de seis países (Turquia, Vietnã, Paquistão, Coreia do Sul, Bangladesh e México) na primeira semana de agosto.

Busato explica que esses empresários são responsáveis pela importação de 900 mil toneladas da fibra brasileira.

“O correspondente a 99% do mercado comprador de algodão está na Ásia, e os integrantes da Missão Compradores deixaram o Brasil encantados com o que viram nas fazendas e também nos laboratórios visitados.”

“A indústria têxtil nacional absorve aproximadamente de 30 a 35% da produção brasileira de algodão” – Fernando Pimentel, presidente da Abit.

Miguel Faus, presidente da Anea, diz que a organização da cadeia produtiva do algodão é “importante para enfrentar os principais concorrentes (EUA e Austrália) e combater narrativas de que o Brasil derruba a Floresta Amazônica para plantar algodão”. Ele explica que a cadeia algodoeira se sustenta em um grupo relativamente restrito e muito organizado, que é integrado pela Abrapa e as estaduais, a Abit, a Anea e a BBM (Bolsa Brasileira de Mercadorias), da qual os corretores são membros.

“Mesmo que haja interesses opostos – o produtor quer vender caro e quem compra quer pagar barato –, há um entendimento de que o negócio tem de ser bom para todo mundo”, argumenta. O presidente da Anea cita um aspecto que também é destacado pelo presidente da Ampa: a importância de se cumprir contratos (a chamada santidade dos contratos) num mercado volátil e no qual se comercializa a produção de uma safra que, às vezes, sequer foi plantada. “Nós nos respeitamos. Tudo foi sendo construído pelo bem comum”, afirma Aguiar.

Fernando Pimentel, presidente da Abit, acrescenta que a indústria têxtil nacional absorve aproximadamente de 30% a 35% da produção de algodão brasileira (o equivalente a cerca de 700 mil toneladas de pluma ao ano) e é importante para o produtor e a cotonicultura contar com a demanda do mercado doméstico, sobretudo num momento em que “o mercado mundial encontra-se num processo complexo, com disputas geopolíticas e fretes caros”.

Além disso, argumenta Pimentel, a indústria têxtil nacional – formada pelos setores de fiação, tecelagem, malharia e confecções – incorpora novas tecnologias e, por isso, fornece a produtores e instituições de pesquisa dados valiosos para que a fibra brasileira continue atendendo às demandas de compradores mais exigentes.

“Quando você tem a indústria dentro de casa, cria uma base de conhecimentos importante. Essa visão de conjunto favorece a cadeia produtiva como um todo. À medida que você vai interagindo com os representantes de outros elos e trocando informações, eles vão se fortalecendo, e isso é positivo para o país, cria um senso de cooperação”, comenta Pimentel.

O produtor Alexandre Schenkel também enfatiza a importância desse diálogo constante com a indústria têxtil, de compreender “as demandas” do comprador, visando assegurar que a fibra natural tenha as características necessárias, a fim de evitar desperdícios e garantir o melhor produto final.

“Sabemos exatamente onde cada fardo de algodão foi produzido e onde foi beneficiado. Ninguém tem um programa de rastreabilidade como o nosso”, garante Júlio Cézar Busato, da Abrapa.

Luiz Carlos Bergamaschi, atual presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), confirma a personalidade diferenciada do agricultor que se dedica à cotonicultura. “A gente não faz nada sozinho e tudo – cidade, campo – está integrado ao sistema produtivo. As dificuldades existem para todos, e estamos sempre procurando soluções”, diz.

Bergamaschi cita o exemplo das Missões Compradores, das quais participou recentemente, que servem para que os produtores entendam o que o mercado internacional está exigindo e também para mostrarem como é feita a produção algodoeira no Brasil. “Trazemos os consumidores da pluma para dentro de nossas fazendas e, após essa troca de informações, procurarmos fazer o nosso dever de casa”, acrescenta.

O catarinense Bergamaschi recorre ao exemplo do combate ao bicudo do algodoeiro – origem de parte desta história – para falar sobre o comportamento do produtor hoje. “Como se controla essa praga, que dizimou grandes lavouras de algodão num passado não tão remoto? Criamos núcleos regionais para discutir cases de sucesso, trocar experiências, porque, se o vizinho de fazenda não fizer a parte dele, eu também terei dificuldades para controlar o bicudo na minha propriedade.”

Talvez o exemplo mais contundente da postura proativa e organizada do cotonicultor vem do chamado contencioso de algodão: uma disputa comercial contra os subsídios dados pelo governo norte-americano a seus produtores, que foi vencida pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) após 12 anos, gerando uma indenização que contribuiu para fortalecer a cadeia produtiva. “O governo brasileiro procurou o apoio da Abrapa e seus associados para uma ação na OMC, mas nós, produtores, encaramos todo o trabalho e as despesas, que não foram pequenas. Contratamos um escritório de advocacia norte-americano de referência, fomos atrás do apoio da indústria de máquinas e implementos, promovemos bingos e rifas, e criamos mecanismos visando obter recursos que garantiram essa vitória histórica na OMC”, recorda Paulo Aguiar.

Os produtores brasileiros de algodão realmente não brincam em serviço e, diante dos resultados alcançados no campo, estão sempre dispostos a se aliar aos demais elos da cadeia produtiva para não colocar em risco a posição de liderança duramente conquistada pela cotonicultura nacional.

“Sabemos exatamente onde cada fardo de algodão foi produzido e onde foi beneficiado” – Júlio Cézar Busato, presidente da Abrapa.

Fonte: Globo Rural

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ampasul

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